IA nas empresas: já não é sobre implementar, é sobre responder por ela
- Daniel Lança Perdigão

- há 3 minutos
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Há um relatório novo da KPMG, o Global AI Pulse Q2 2026, que entrevistou 2.145 líderes seniores em 20 países. E os números contam uma história que já ouço há meses nas salas de reunião: a confiança dispara, o investimento mantém-se firme, mas o retorno continua reservado a poucos.
76% dizem que a IA já entrega valor de negócio. Mais 12 pontos do que há três meses. 79% mantinham o investimento mesmo numa recessão. A adoção acelera: as organizações na fase de “adoção ativa” quase duplicaram, de 13% para 22%.
Só há um problema. O ROI estabelecido, esse que se prova com números e não com entusiasmo, mal se mexeu.
O CEO adora a IA. Só não sabe bem quem responde por ela.
Este é o dado que me fez parar e reler duas vezes. 75% das organizações dizem que o CEO abraça a IA como prioridade estratégica. Entretanto, quando se pergunta quem é responsável, de facto, pelas decisões tomadas com apoio de IA, apenas 24% apontam para o CEO ou para a comissão executiva.
Ownership não é accountability. Gostar de um projeto na reunião trimestral é fácil. Responder por ele quando corre mal é outra conversa, bem mais desconfortável.
E os números não deixam dúvidas sobre o que isso custa: quem tem responsabilidade claramente definida tem o triplo da probabilidade de reportar ROI estabelecido. Não o dobro. O triplo.
Ninguém sabe bem quanto está a gastar
A segunda descoberta é ainda mais reveladora, para quem, como eu, passa o dia a falar de método em vez de moda. Só 35% das organizações têm visibilidade total e monitorização ativa dos custos operacionais de IA. As restantes andam às cegas, ou quase.
E atenção: quem tem essa visibilidade tem cinco vezes mais probabilidade de chegar a ROI estabelecido. Cinco vezes.
Quase metade das empresas (49%) já teve de travar, atrasar ou repensar um projeto de agentes de IA porque o custo ultrapassou o valor gerado. Isto não é falta de confiança na tecnologia. É gestão a acordar para uma verdade simples: o que não se mede, não se controla. E o que não se controla, mais cedo ou mais tarde, cobra a fatura.

A pergunta mudou. E isso é uma boa notícia.
Gosto especialmente deste ponto do relatório: as organizações já não perguntam “devemos avançar com IA?”. Perguntam “como escalamos isto?”, “quem decide?”, “quanto nos custa, de facto?”. É o sinal mais claro de que saímos da fase da curiosidade e entrámos na fase da gestão a sério.
A força de trabalho segue o mesmo caminho. 78% dos líderes esperam que a fluência em IA se torne decisiva para quem quiser manter o seu papel relevante. A adoção pelos colaboradores subiu, a resistência caiu, exceto nos Estados Unidos, onde subiu de 5% para 20%. Vale a pena olhar para esse contraste com atenção.
Três coisas para levar deste relatório
Se tivesse de resumir o que vale a pena reter, ficava por três:
• Investir em IA sem definir quem responde pelos resultados é como dar as chaves do carro sem perguntar quem vai conduzir.
• Visibilidade de custos não é burocracia. É a diferença entre 3% e 15% de probabilidade de provar retorno.
• A questão deixou de ser “temos IA?”. Passou a ser “sabemos gerir o que ela custa e quem decide com ela?”.
Quem ainda testa a IA como quem faz uma demonstração vai continuar a colecionar entusiasmo sem resultado. Quem já percebeu que isto se gere como qualquer outro investimento sério, com donos, números e disciplina, está a começar a ver a diferença nos relatórios.
E essa diferença, já se sabe, aparece sempre na linha do ROI.
Daniel Lança Perdigão
AI Advocate
Fonte: KPMG International, Global AI Pulse Q2 2026, junho de 2026.



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