Fathomicity: liderar com profundidade num tempo de atalhos
- Daniel Lança Perdigão

- 13 de ago.
- 3 min de leitura
Há uma palavra inglesa de que gosto particularmente: fathom.

Imagem ilustrativa criada com GenAi , por Daniel Lança Perdigão
Significa sondar, medir a profundidade das águas, e, por extensão, compreender alguma coisa até ao fundo. Um marinheiro que sonda evita o encalhe. Um líder que sonda evita bastante mais do que isso.
Descobri recentemente o conceito de Fathomicity, desenvolvido por Sharon Curry e Andrew St George. Falo dele, mas não é meu.
Não tenho nenhuma participação nele. Achei-o simplesmente interessante e, como faço sempre que encontro uma boa ideia, divulgo-a.
O problema não é a falta de modelos
O problema é o excesso de modelos rasos.
Andamos há anos a consumir listas. Os sete hábitos. Os cinco passos. As três chaves. Tudo cabe num carrossel de LinkedIn, tudo se lê em noventa segundos, e quase nada sobrevive ao primeiro contacto com uma segunda-feira difícil. Não é que as listas sejam mentira, mas são superficiais. E à superfície, por definição, não se sonda nada.
Curry e St George propõem o contrário. Em vez de reduzir a liderança a uma fórmula, ampliam-na até ela ganhar a complexidade que sempre teve. Ecossistemas organizacionais. Motivações humanas. Imperativos estratégicos. Tudo ao mesmo tempo, sem transformar nenhum destes elementos numa caricatura conveniente.
Seis pilares, três movimentos
A arquitetura é elegante e, ao mesmo tempo, brutalmente exigente.
Seis pilares sustentam o modelo: as narrativas, o porquê da liderança, os valores fundamentais, as qualidades e comportamentos, a avaliação da própria liderança e, finalmente, a liderança em ação.
E cada um destes seis pilares atravessa três movimentos: ouvir, decidir e agir.
Faça as contas. Dezoito territórios a explorar. Nenhum deles opcional.
É aqui que o modelo se torna incómodo, e é exatamente por isso que merece atenção. Ninguém pode alegar que é excelente a decidir se nunca aprendeu a ouvir o contexto. Ninguém pode dizer que age bem se nunca calibrou o porquê. A grelha expõe as lacunas com uma frieza que agradeço.
A parte que mais me tocou
A dimensão narrativa.

Imagem ilustrativa criada com GenAi , por Daniel Lança Perdigão
Salman Rushdie afirma que o homem é um animal contador de histórias, e que as suas histórias são a sua identidade, a sua razão de viver e o seu sustento. Marvin Bower, da McKinsey, define cultura empresarial com uma simplicidade desarmante: é como fazemos as coisas por aqui.
Junte ambas as ideias e percebe-se uma coisa que muitas empresas ainda não perceberam. A cultura não se escreve num quadro na parede da receção. Conta-se. Repete-se. Renova-se. Ou morre, discretamente, enquanto todas as pessoas juram que os valores estão afixados no corredor.
E há uma frase, atribuída a Karl Popper, que sozinha justifica o tempo que dediquei a este modelo: a simulação do futuro através da narrativa permite que as nossas hipóteses pereçam em nosso lugar. Traduzindo para linguagem de gestão: contar a história antes de a viver é a forma mais barata de errar.
Porque é que isto importa agora
Vivemos rodeados de ferramentas que aceleram tudo. Eu próprio trabalho com elas todos os dias, e defendo-as. Mas a velocidade tem um efeito colateral que se nota pouco e custa muito: quanto mais depressa produzimos respostas, menos tempo passamos com as perguntas.
A profundidade não escala. Não se automatiza e não se compra num pacote de formação de meio-dia.
Constrói-se.
Talvez seja essa a razão pela qual o conceito me ficou na cabeça. Numa altura em que quase tudo empurra os líderes para a superfície, aparece alguém a dizer: sondem. Meçam a profundidade antes de avançar. O casco agradece.
Daniel Lança Perdigão
Partner & Co-founder UpSideUp
Créditos
O conceito de Fathomicity é de Sharon Curry e Andrew St George. Este texto é apenas a partilha de alguém que o achou relevante e considera que merece ser conhecido por mais gente.



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