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AMÁLIA: tudo isto é fado, mas ainda é pouca IA

Foto do escritor: Daniel Lança Perdigão
Daniel Lança Perdigão
há 3 dias
3 min de leitura

Adorava ter um bom LLM português. Um que compreendesse a nossa língua, o nosso contexto e as nossas particularidades, e que me desse razões para o escolher no trabalho do dia a dia.

Após ler hoje o artigo do Negócios de 28 de setembro sobre o AMÁLIA, continuo longe de sentir que vale a pena dedicar-lhe tempo. Mesmo com o Caravela.


Imagem criada pelo autor ajuda de AI (não foi com o Amália)
Imagem criada pelo autor ajuda de AI (não foi com o Amália)

É uma opinião sobre onde investir a minha atenção, que também tem um orçamento limitado.

O artigo apresenta duas perspetivas que merecem ser lidas em conjunto. Os criadores do Caravela IA apontam ao AMÁLIA informação desatualizada, alucinações e dificuldades na utilização de ferramentas. A Priberam encontra utilidade no modelo, depois de o adaptar a tarefas específicas, nomeadamente à tradução entre inglês e português de Portugal.


Ambas podem ter razão. Um modelo pode ser útil numa aplicação bem delimitada e continuar muito longe daquilo de que preciso num assistente de utilização diária.


É precisamente aí que me encontro. Reconheço o interesse do projeto. Ainda não vejo razões suficientes para o incluir nas minhas ferramentas de trabalho.


O Caravela procura ultrapassar algumas destas limitações com uma solução híbrida e acesso a fontes externas. Faz sentido. Mas, pelo descrito, isso ainda não me convence a investir tempo a explorar este ecossistema quando tenho alternativas que já respondem a necessidades mais exigentes.


O fado também se escreve com dinheiro.


Há uma comparação que ajuda a perceber a dimensão do desafio:

  • AMÁLIA: investimento total de 8,8 milhões de euros, segundo o Negócios.

  • Mistral AI: teve uma ronda de financiamento de 1,7 mil milhões de euros, anunciada em setembro de 2025. Fonte: Mistral AI

  • Anthropic, criadora do Claude: teve uma ronda de 65 mil milhões de dólares, anunciada em maio de 2026. Fonte: Anthropic

  • OpenAI, criadora do ChatGPT: teve uma recente ronda, com 122 mil milhões de dólares de capital comprometido, anunciada em março de 2026. Fonte: OpenAI


Convém comparar com rigor: o orçamento de um projeto público português e as rondas de financiamento de empresas multinacionais são medidas diferentes. Estes valores também não representam o custo de treinar cada modelo, nem dinheiro já integralmente gasto. E mantive as moedas originais.

Mesmo assim, a diferença de escala é esclarecedora. Só aquela ronda da Mistral equivale a cerca de 193 vezes o investimento total anunciado para o AMÁLIA.


O dinheiro não garante qualidade. Mas paga capacidade de computação, equipas, dados, experiências, avaliação e sucessivas tentativas de melhorar. Esta diferença nos recursos ajuda a compreender o atraso, embora não o explique por inteiro.


Também devia ajudar a ajustar o discurso público às capacidades que podemos realisticamente entregar!


Entretanto, continuo a navegar.


Por agora, continuo a navegar entre americanos e chineses. Infelizmente, porque gostaria de ter alternativas portuguesas e/ou europeias que escolhesse pela sua qualidade e utilidade.


A Mistral anda por aí. É europeia e acompanho-a com interesse. Mas a minha experiência tem sido esta: quando está quase a convencer-me, os outros avançam novamente e ela volta a ficar para trás nas tarefas que valorizo.


É frustrante. Gostava de poder concentrar mais do meu trabalho em tecnologia europeia. Para isso, preciso de resultados que sustentem essa escolha todos os dias.


No caso português, vejo mérito em desenvolver competências, proteger a presença do português de Portugal e criar soluções para necessidades locais. Os exemplos da Priberam descritos no artigo indicam um caminho concreto: escolher uma tarefa, adaptar o modelo e demonstrar utilidade.


É por aí que gostaria de ver o AMÁLIA conquistar espaço. Com resultados verificáveis, fiabilidade e vantagens claras para quem o utiliza.


Até lá, o meu tempo continuará a ir para as ferramentas que melhor me ajudam a trabalhar.

A Amália Rodrigues conquistou o mundo com a voz. Este AMÁLIA ainda tem de me conquistar com as respostas.


Adorava que o conseguisse.


Daniel Lança Perdigão

Creative Energiser Officer

 
 
 

1 comentário


mcastelhano5
há 2 dias

Lamentavelmente continuo a concordar com o Daniel Perdigão. Provavelmente, a solução para o "Amália" passará por licenciar uma plataforma internacional, como o ChatGPT ou o Claude, e criar uma versão portuguesa que responda em português de Portugal, se possível com e sem o Acordo Ortográfico, porque muita coisa boa fica para trás, e rebatizar essa versão como Amália 2.0 ou outra coisa que seja reconhecida como portuguesa. A Apple não teve vergonha nem qualquer problema em licenciar o Gemini do Google para criar a nova SIRI. Uma forma de avançarmos rapidamente é aproveitar o que já existe de bom e não tentar reinventar a roda. Todos temos ideias e dizemos que conseguimos fazer, mas a diferença entre o dizer e…

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